Ontem, nas primeiras horas na noite, quando passava em frente a uma das farmácias mais movimentadas e seguramente bem sucedidas da cidade, muito conhecida pelos preços acima da média, com um público economicamente bem favorecido, situada em uma das esquinas de maior movimento da cidade no coração do comércio, encontrei, do lado externo, escondida em um canto, uma senhora de seus 65 anos. De aparência frágil, nos poucos segundos que a vi notei seu corpo esquálido; seus olhos tristes ligeiramente marejados; sua boca arqueada para baixo; em sua cabeça um lenço branco; sua voz era fraca e trêmula e que, assim como o seu corpo, refletia sua impotência diante da situação.
Um paradoxo! As pessoas que por ali passam e frequentam têm vozes projetadas firmemente, os corpos robustos ou esguios, sorrisos estampados, aparência de segurança, claro que há exceções, mas nunca vi uma que destoasse desse cenário como D. Maria mesmo assim ela era quase invisível aos olhos das pessoas. Na verdade invisível aos seus corações.
Nos curtos segundos que os nossos olhares se encontram ela se dirigiu a mim e disse "me ajude, estou sem documento". Supondo que ela iria pedir dinheiro passei direto, a ignorei, fui mais um que a deixou lá, desolada, sem grandes esperanças. Eu a ignorei, mas a lembrança daquela mulher de aspecto sofrido veio comigo até em casa e permanece até agora. A medida que eu me afastava sentia um peso, uma DOR, por não ter ajudado-a.
Aqui cabe uma justificativa, não sou desses que não dá dinheiro a pedintes, pelo contrário. Dou dinheiro, dou comida. Pago para eles o mesmo que compro para mim. Mas por que dessa vez eu não fiz o mesmo com essa senhora de aspecto frágil e solícito já que sou tão caridoso? Simples: meu salário acabou! É isso mesmo, estava sem dinheiro a exatos 7 dias após tê-lo recebido, no momento minha carteira tem pouco mais de R$10 que usarei para ir trabalhar amanhã.
O Porquê me preocupar se eu não poderia ter feito nada por ela já que estava sem dinheiro? Nem mesmo sei se ela realmente era uma pedinte ou uma delinquente da terceira idade muito bem disfarçada. Bom, eu sou do tipo que acredita nas pessoas acima de tudo, não acho que somos perversos por natureza, apenas o mundo, a sociedade, sendo mais claro, não favorece a todos e é de um misto de fatores que são esses "não-favorecimentos" que surgem os membros marginalizados que nos aterrorizam e, às vezes, nos impedem de ajudar pessoas, como essa Maria da Vida. Me preocupo com ela por que ela é uma pessoa assim como eu: tem sonhos, objetivos, medos, anseios, por mais "simples" que sejam, por mais diferentes que sejam. Para D. Maria, é o que ela tem. Mas não vamos confundir e achar que esses sonhos, objetivos e cia são melhores ou piores que os meus ou os seus, são apenas diferentes e eu os respeito. Por outro lado, não posso deixar de notar que as nossas condições para buscar esse "pacote felicidade" sejam bem diferentes. Para notar isso, basta ver a situação na qual ela se encontra hoje, uma pedinte. O seu olhar, a boca, o seu já comentado corpo esquálido diziam que possivelmente D. Maria não come direito, não tem um emprego digno, não tem um lar confortável. Será que ela há alguém que se importe come ela?
Quando volto a pensar no dinheiro, imagino que consigo gastar um dos meus salários em 7 dias com frivolidades e enquanto isso algumas pessoas passam messes inteiros ou até um ano com ele. Acho que há alguma coisa errada aí. TEM GENTE PASSANDO FOME!!! E ainda mais gente sendo fútil, frívola e principalmente desumana. Não estou me eximindo disso, pelo contrário, caso eu tivesse poupado o meu salário para que ela durasse pelo menos mais um dia eu poderia, no mínimo, ter pago algo pra ela comer, ter ajudado com a passagem pra casa, caso não seja dessa cidade. Sei que uma dessas atitudes não iria resolver os eventuais problemas de D. Maria, mas se eu e mais tantas outras pessoas frívolas fizéssemos um ato desses seguramente teríamos Marias e Josés em situações mais confortáveis.
Me pergunto se as pessoas que passaram por lá, vão ajudá-la. Será que eles vão pelo menos olhar para D. Maria e enxergá-la como gente? Queria do fundo do meu coração ter ajudado-a, mas como não pude, torço pra que alguém faça isso.
O que mais me dói nessa história toda não é o fato de ter gasto todo o meu dinheiro com frivolidades e por conseguinte não ter como ajudá-la, mas, sim, o fato de não ter dado importância a D. Maria de não ter nem ao menos dito um " desculpe, não tenho como lhe ajudar". Oras, eu nem sabia o que ela iria me pedir!!! Poderia ter a ajudado com, talvez, com uma palavra de conforto, sei que isso parece muito "romântico" e até infantil, mas um afago pode ser o melhor consolo que uma pessoa pode ter em um momento de fragilidade, saber que não está só e que há alguém disposto a ajudar.
De qualquer sorte, ali estava D. Maria despida de todo o orgulho que é tão característico do ser humano, se colocando, inevitavelmente, em uma situação de inferioridade, ela pedia uma ajuda, financeira ou não. O que me incomoda é como eu e tantas outras pessoas passamos e deixamos alguém, que é gente como a gente compadecer. Pode ser que eu esteja enganado, que ela estivesse apenas em busca de uma informação e eu esteja apenas cultuando um esteriótipo, talvez, mas duvido muito. A partir de hoje tentarei ser mais solidário, e partir da premissa que não preciso ajudar somente com dinheiro, ele é uma parte importante, mas está muito distante de ser o tudo ou ainda o principal o que precisamos é nos enxergar como iguais, sendo um a extensão do outro.
♫ ... é gente humilde que vontade de chorar

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